Dieta e Epilepsia

Dieta e Epilepsia

BREVE HISTÓRICO:

Desde 460-370 a.c. notou-se que as crises epilépticas eram controladas durante o jejum prolongado. Esta era a única forma de tratamento.

Em 1921 Dr. Russel Wilder desenvolveu a dieta cetogênica na clínica Mayo nos EUA, onde se mimetizava o que ocorria no jejum com o paciente alimentado.

Com a descoberta e o desenvolvimento de novas drogas antiepiléticas durante os anos que se seguiram esta dieta foi deixando de ser utilizada como forma de tratamento.

Frente aos casos refratários, mesmo às drogas mais modernas, a dieta vem sendo cada mais utilizada e mostrando que pode ser uma forma de tratamento bem sucedida nestes casos.

O ressurgimento da dieta ocorreu principalmente desde 1993 devido a um caso bem conhecido e de sucesso com a dieta, cuja história inclusive se tornou um filme (“ Pela Vida Do Meu Filho   – First Do No Harm”) e cuja família criou uma fundação, a Charlie Foundation, até hoje responsável por grande parte da divulgação da dieta para tratamento da epilepsia refratária e de suporte a pais, familiares e portares. ( www.charliefoundation.org)

 

COMO FUNCIONA

A dieta cetogênica se baseia na fonte de energia a partir dos corpos cetônicos oriundos das gorduras, em vez do que comumente ocorre quando ingerimos carboidratos na dieta e utilizamos a glicose como fonte de energia. Dessa forma é uma dieta rica em gorduras e muito pobre em açúcar (carboidratos).

A cetose crônica, ou seja, uma alta quantidade de corpos cetônicos no sangue seria benéfica para o cérebro no sentido de hiperpolarizar neurônios, aumentar neurotransmissores inibitórios e aumentar o limiar convulsivo.

 

INDICAÇÕES

A dieta está indicada na epilepsia refratária, ou seja, que não respondeu a duas ou mais drogas indicadas ao tipo de epilepsia e em dose adequada, podendo ser utilizada em quase todos os tipos  de epilepsia.

Ela é o tratamento de primeira escolha nas seguintes doenças metabólicas:

  • Deficiência do Transportador GLUT 1
  • Deficiência de Piruvato Desidrogenase

E está indicada com benefício muito provável nos seguintes casos:

  • Síndrome de Doose
  • Esclerose Tuberosa
  • Síndrome de Rett
  • Síndrome de Dravet
  • Espasmos Infantis (Síndrome de West)
  • Lactentes em uso exclusivo de fórmula, pela facilidade da sua realização já que está disponível no mercado uma fórmula para esta dieta

É importante que pacientes sem diagnóstico etiológico da sua epilepsia sejam avaiados no ponto de vista metabólico, devido a algumas contra-indicações absolutas à realização da dieta a serem investigadas. Elas são:

  • Deficiência de carnitina (primária)
  • Defeitos da β-oxidação
  • Porfiria
  • Deficiência da piruvato descarboxilase

 

Contra-indicações relativas seriam :

Desnutrição, apesar de a nossa experiência no ambulatório em que trabalhamos mostrar que alguns pacientes chegam a ganhar peso.

Indicação cirúrgica, no caso de epilepsia focal;

Não concordância/ adesão da família.

 

TIPOS DE DIETA:

Podem ser realizados 4 tipos de dieta diferentes:

1) Cetogênica clássica, mais rigorosa, com maior proporção de gordura e menor de proteínas e carboidratos. Esta pode ser iniciada de duas maneiras: ambulatorial, onde esta proporção é aumentada gradativamente, ou com o paciente internado, inicia com jejum até que se identifique a cetose e a dieta já é iniciada na proporção de manutenção. Esta dieta requer muita disciplina no preparo das refeições, onde todos os alimentos são pesados e inclusive a ingesta de líquido diária é limitada. Esta dieta é mais indicada para crianças até 2 anos de idade ou crianças mais velhas com maior comprometimento cognitivo e/ou motor pelo risco de transgredir a dieta.

2) Atkins Modificada, baseada na dieta de Atkins, conhecida como dieta da proteína, acrescida ainda de maior quantidade de lipídeos. Esta dieta é mais fácil de fazer, digamos assim, pois é menos restrita do ponto de vista da quantidade de proteína e de gorduras, tendo que se observar a quantidade ingerida de carboidrato por dia. Esta é mais indicada para crianças mais velhas e adultos.

3) Dieta de baixo índice glicêmico para epilepsia, de forma semelhante à dieta de baixo índice glicêmico para diabéticos evita carboidratos de alto índice glicêmico, mas além disso limita o carboidrato total diário a 40 a 60gramas (aproximadamente 10% das calorias). Usada em poucos centros.

4) Dieta com TCM (triglicerídeo de cadeia média) possibilita uma maior ingesta de carboidrato, já que o triglicerídeo de cadeia média é absorvido de forma mais eficiente e produz mais corpos cetônicos por caloria. Seria uma opção útil para indivíduos que não toleram as dietas mais restritas.

 

EFEITOS COLATERAIS

Da mesma forma como ocorre com qualquer tratamento efeitos colaterais podem ocorrer, mas são em sua maioria contornáveis e não requerem a suspensão da dieta.

Os efeitos mais comuns são:

Vômitos

Diarréia

Anorexia

Constipação

Dor abdominal

Perda de peso

Hipercolesterolemia

Hipertriglicerinemia

Hipocarnitinemia

Obnubilação

Leucopenia

Acidose metabólica

Hipercalciúria

Litíase renal

QT prolongado

Hipoglicemia

Desidratação

Anemia

Obnubilação

Acidose tubular renal

É importante que seja utilizado polivitamínico durante todo o período da dieta e outros suplementos podem ser necessários dependendo de cada caso e das medicações antiepiléticas em uso.

O acompanhamento de perto da equipe multidisciplinar e orientação de pacientes e familiares é de suma importância.

No caso de o paciente apresentar qualquer efeito colateral ou alguma outra intercorrência como uma infecção, necessitando de atendimento médico de urgência, é importante que a família tenha consigo a dieta prescrita e as orientações médicas, porque  a maioria dos médicos de pronto socorro desconhece a dieta e muitas vezes pode não saber como proceder nestas situações.

 

FUNCIONA?

É importante saber que muitos estudos mostram que pouco mais que 50% das crianças em tratamento com dieta cetogênica apresentarão melhora do padrão de crises em 50%. Cerca de um terço apresentará melhora de 90%. E 10 a 15 % ficará livre de crises!

Temos que pensar na dieta como possibilidade de tratamento.